sexta-feira, 1 de abril de 2011

TV não emburrece

Quando vamos parar de culpar a TV pela nossa burrice? O discurso de que a TV emburrece, de que as novelas e o BBB “alienam” (quem diz isso realmente leu Marx ou mesmo Adorno?), já é um discurso ultrapassado. Sei que meus colegas de comunicação já cansaram de ouvir isso, mas, como meu blog tem outros públicos, essa discussão merece espaço. Pior do que ultrapassado, esse é um discurso que, não raro, assume suas formas autoritárias, coisa que numa democracia é inaceitável. Vejamos, com paciência, de onde esse discurso pode ter vindo e porque ele merece as devidas críticas.

Para começar, tenho minhas suspeitas de que esse discurso é uma ressonância dos estudos sobre a indústria cultural da primeira metade do século passado. Adorno, da escola de Frankfurt, deu um grande peso à noção de indústria cultural e, com isso, condenou todos os meios de comunicação como reprodutores de ideologia (entendida como ilusão que inverte a realidade e mascara a exploração do trabalhador, alienando-o do fruto de seu trabalho). Não raro, o pensamento de Adorno é criticado como elitista. Afinal, para ele, somente a “alta cultura” poderia nos salvar da ideologia. Ora, na mesma “escola” (parece que os Frankfurtianos são unidos só pelo nome) de Adorno, Walter Benjamim nos mostrou um caminho diferente. Mostrou-nos que o cinema tinha seu poder revolucionário.

Mais tarde, Habermas nos mostraria que o pensamento de Adorno merecia uma crítica que recairia nos fundamentos epistemológicos de seu pensamento. Adorno pensou de acordo com a noção de sujeito moderno, que pensa sozinho, é autônomo e com o cogito, chega sozinho à verdade. Ora, mas a razão monológica (de uma só pessoa), nos apontaria Habermas, tende para o autoritarismo: uma só pessoa pensa e impõe a verdade às outras. É nesse contexto que Habermas introduz a noção de razão comunicativa, intersubjetiva. O que é isso? Isso é a racionalidade que se constrói entre sujeitos, através do diálogo e do consenso. Uma razão dialógica. Por que devemos nos sujeitar à racionalidade de uma pessoa, uma autoridade, sendo que podemos exercer a razão juntos, conversando? Aqui, a ideia da indústria cultural, e da TV alienadora, cai por terra porque no mundo da vida podemos, através de nossas conversas, questionar tudo que vem das “estruturas”, da TV e etc. Isso significa dizer que a TV não transmite para mentes isoladas que estão sujeitas a essa mensagem como receptáculos passivos.

Outros estudos mais recentes, como os estudos do interacionismo simbólico, teoria da recepção, apontam que essa coisa de “Tv alienadora” é uma bobagem, dado que o receptor pode ter um papel ativo na ressignificação da mensagem. Pode mesmo negá-la, como muitos de nós fazemos quando dizemos que a TV está mentindo. O que acontece é que o bom senso de ontem, que foi Adorno, se transformou, descontextualizado, no senso comum de hoje. Tem muita gente repetindo Adorno, descontextualizado, sem saber.

Mas, afinal, no que os pregadores da “TV como emburrecedora” acreditam? Acreditam que o Brasil seria um país melhor se a TV possuísse programas de melhor qualidade, se os BBB’s e as novelas da Rede Globo fossem banidas das programações. Ora, mas quem disse que as ressignificações (os sentidos que damos pras mensagens da tv) são uniformes? Pessoas de boa formação podem assistir TV e continuam inteligentes. Acontece que a boa formação, a boa educação, amplia a nossa percepção, de maneira que temos maior condição de refletir sobre aquilo que vemos. A pessoa inteligente, se gosta do BBB, o vê com o olhar produtivo. A questão não é gostar ou desgostar da TV, mas sim ter a capacidade de ver a TV de forma inteligente. E os inteligentes, muitas vezes, não deixam de observar nem a cultura popular e nem a de massa, como Gramsci, por exemplo.

O pessoal anti-TV acredita também que, melhor do que dialogar e repensar o problema, é impor que as pessoas não devam gostar de novelas e BBB. Enfim, impõe que os outros não devam gostar de TV. Aí, seu pensamento vira autoritário e ele se transforma num verdadeiro pregador, querendo ditar o gosto alheio. Gostar ou não gostar de TV e seus programas é não só um direito das pessoas, como diz muito menos sobre a inteligência delas do que se acredita. Isso o pregador não entende.

Aqui, o pregador poderia questionar: “mas você está tomando como pressuposto que todas as pessoas são inteligentes. Como a maioria dos brasileiros é burro, então o que você falou não vale”. E aí, ele caiu na própria armadilha. Se for verdade que a maioria dos brasileiros é burro (verdade do pregador), então, o que temos no país não é um problema de TV, mas sim um problema de educação. E como se resolve primordialmente um problema de educação? Pela TV? Não! Pela educação, oras. Pensando-se em boas políticas de educação, remunerando melhor os professores do ensino médio e fundamental para que a área se torne mais competitiva, dando atenção às reformas do ensino fundamental e médio. Em suma, promovendo uma mudança radical (pela raiz), na educação brasileira, afinal, nosso ensino fundamental, e médio, está precário.

Melhorando-se a educação, formando-se bons cidadãos, estes terão a percepção de mundo ampliada e poderão ver não só a TV, como o resto do mundo, de maneira construtiva, positiva. A teoria da recepção nos mostra isso: não se dá significados iguais às mensagens da TV, por exemplo. Esses significados dependem das estruturas de sentido do receptor. Se isso é verdade, a educação tem o poder de ampliar essas estruturas de sentido, fazendo com que o receptor ressignifique as novelas, ou o BBB, de forma inteligente.

Pensando utopicamente num país onde a educação é exemplar, esse será um país onde a pessoa terá o direito de gostar ou desgostar de novelas, ou BBB, sem ser taxado como burro. Será um país onde as pessoas podem assistir filmes hollywoodianos para descansar sem serem julgadas pelo crivo da erudição. Será um país onde, pelas pessoas terem boa formação, poderão exigir, caso assim queiram, dos produtores da TV, programas mais elaborados, criando uma demanda de qualidade que os produtores não poderão ignorar.

Culpar a TV pela má educação no Brasil é uma grande bobagem, é se desviar do problema central que é a própria educação. Talvez se parássemos de apontar o dedo indicador pra TV e começássemos a apontar para nós mesmos e nossas políticas educacionais, a coisa poderia começar a mudar.

PS: Eu conheço os estudos sobre a questão da concentração de crianças que veem muita TV, mas isso não tem a ver com minha provocação. A minha questão é cultural e tem mais a ver com o conteúdo da TV. Novela emburrece? Só burro acha isso. Novela é folhetim televisionado. É uma questão de educação saber apreciar uma novela como quem aprecia um folhetim.

9 comentários:

  1. é isso mesmo que acontece, tratam a tv como um monstro que suga a inteligência das pessoas, como se elas fossem totalmente passivas; quanta ignorância.
    ótimo texto!

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  2. Há quem diga o contrário:

    http://altairnogueira.com.br/?p=132

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    1. Rapaz, nunca vi tanta bobagem no mesmo texto.

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  3. Concordo com você em partes, mas ainda a televisão é uma das, ou a principal difusora de cultura. Talvez ela não seja resposável por toda essa "burrice brasileira" ,mas, ajuda bastante nesse processo. Temos o exemplo da coréia do sul que cresceu economicamente muito rápido após a colocação obrigatória de programas educativos em sua programação. Alem de, mesmo se eu estiver errado os informativos midiáticos, principalmente televisivos são controlados por poucas famílias e portanto,a informação é dado do jeito que querem, e aprendemos o que eles querem. Essa mesma relação é também válida a educação, pois o estado define o que é ensinado. Para um bom resultado talvez valesse uma ação conjunta

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    1. "Verdade ou Mentira?", interessante é que eu e você estamos aqui discutindo isso, mas nunca precisamos de "TV educativa". Eu cresci vendo bundas gostosas na banheira do Gugu e a Ponte do Rio que Cai no Faustão. E aí? Somos abençoados? O que nós tivemos de diferente do "povo brasileiro" que consideramos "tapados"? Esse negócio de "ação conjunta" é dar mais um giro na roda de querer cobrar da TV que ela vire escola. Eu não quero que a TV vire escola, eu quero que a escola ensine a se fazer leituras da TV. Assim a demanda muda e os produtores não precisarão ser forçados por lei a criar programas educativos chatos que ninguém vai ver.

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  4. Não concordo, pois tanto as novelas, como o BBB ou até os jornais que transmitem informações manipuladas, almejam apenas o ibope e não entreter e informar (objetivos da TV inicialmente).Para tanto, eles são capazes de distorcer qualquer valor, por exemplo, até hoje, o papel do negro nas novelas é de empregador. Será que em pleno século XXI queremos passar valores racistas? Ou as mulheres com uma necessidade louca de ter um homem ao lado para "respirar". Assim como, a greve dos motoristas de São Paulo/2013 que foi transmitida como a causa do congestionamento da cidade. Será?
    Entre outras informações. Negar que no Brasil não há pessoas capazes de discernir uma informação é um pouco utópico.

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    1. Monique, tudo isso que você falou já é ponto ultrapassado no meu texto. Aliás, parece que você nem leu o texto, só leu o título e um ou outro parágrafo e saiu repetindo o que já tá na sua cabeça.

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  5. O problema da burrice do ser humano provém da informação manipuladora que nos cerca de todos os lados. A solução para este problema chama-se "educação". Cada ser humano precisa sonhar em ser alguém de respeito, capacidade e inteligência no futuro de sua vida. Cabe à nós mesmos escolher em meio a tanta informação, qual é boa e qual é ruim. Quanto ao futuro do mundo formado por pessoas inteligentes, cabe à geração presente repensar sobre este assunto, não fazendo de suas mentes um repositório de lixo, mas sim um lugar organizado, com limites estabelecidos.

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  6. texto chato...pois é a televisão é sim a maior facilitadora da alienação da mente do ser humano e juntando a falta de educação que existe no Brasil dá esse resultado de M! Você não é um alienado porque teve acesso a uma educação boa, talvez até uma estrutura familiar boa em que as pessoas tiveram um acesso melhor a educação, mas essa não realidade do Brasil. Televisão + falta de educação (escolas) = Alienação. COmo você vai questionar, interagir, comparar se não tem outra base?

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